O drama vivido por Juliana Marins, jovem brasileira de 27 anos, que foi abandonada pelo guia turístico durante uma expedição ao Monte Rinjani, na Indonésia, segue gerando grande comoção e indignação. Agora, seu pai, Ricardo Marins, decidiu relatar em detalhes a conversa que teve com o homem que deixou sua filha sozinha em uma das áreas mais perigosas do vulcão. O desabafo do pai, em entrevista exclusiva concedida a uma rede de notícias internacional, evidencia não apenas a gravidade da negligência, mas também o despreparo de muitos profissionais que operam em roteiros de turismo de aventura.
O relato, feito com voz embargada pela emoção, descreve uma situação que ele classificou como “o maior pesadelo de sua vida”.
“Eu olhei nos olhos dele e perguntei se ele tinha ideia do que fez. Ele tremia e não conseguia me encarar. Disse que ‘ficou com medo e não soube o que fazer’, mas isso não é justificativa. Abandonar uma pessoa em um vulcão é inaceitável”, contou Ricardo, visivelmente abalado.
A trilha que virou uma armadilha mortal
Juliana viajava pela Ásia havia três meses quando decidiu escalar o Monte Rinjani, um dos destinos mais procurados por turistas que buscam contato com a natureza exuberante e a experiência desafiadora da subida a mais de 3.700 metros de altitude.
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O pacote que ela contratou prometia acompanhamento integral, incluindo guia experiente, equipamentos de suporte e comunicação de emergência. Contudo, relatos de testemunhas e de outros turistas que subiam pelo mesmo trajeto apontam que a realidade foi bem diferente.
Segundo esses depoimentos, Juliana começou a apresentar sinais de exaustão severa ainda no início da tarde. Ela sentia fortes dores de cabeça, tontura e dificuldade de respiração – sintomas clássicos de mal de altitude, que podem evoluir rapidamente para quadros graves.
De acordo com outros escaladores, o guia que a acompanhava chegou a orientá-la a sentar-se sobre uma rocha e “esperar recuperar as forças”. Depois, afirmou que “desceria até o acampamento-base e voltaria com água e ajuda”. Porém, ele nunca retornou.
Por quase seis horas, Juliana permaneceu sozinha, em um local onde a temperatura despenca no entardecer e a visibilidade fica comprometida. Somente ao anoitecer foi resgatada por um grupo de voluntários indonésios que haviam sido alertados por outros turistas. Ela estava desidratada, em estado de confusão mental e com princípio de hipotermia.
O confronto com o guia e as respostas evasivas
Após chegar à Indonésia e acompanhar de perto os cuidados médicos da filha, Ricardo Marins decidiu procurar pessoalmente o guia e os responsáveis pela agência de turismo que vendeu o pacote. A reunião ocorreu na pequena cidade de Senaru, no escritório da empresa.
Segundo Ricardo, o guia demonstrava nervosismo extremo e, em vários momentos, evitava manter contato visual. Ao ser questionado sobre por que não acionou imediatamente uma equipe de resgate, ele alegou que havia perdido o sinal do rádio e que, sozinho, não se sentiu seguro para permanecer no local.
“Quando ouvi isso, pensei: então ele preferiu salvar a si mesmo e deixar minha filha ao relento, sem água, sem agasalho e sem nenhum recurso. Eu perguntei se ele dorme tranquilo. Ele só balançava a cabeça”, relatou Ricardo.
A empresa, por sua vez, limitou-se a pedir desculpas, argumentando que o profissional era “experiente e treinado”, mas que teria enfrentado “circunstâncias imprevistas” – justificativa que, para a família, soa como tentativa de minimizar o ocorrido.
A repercussão internacional e o debate sobre o turismo de risco
Desde que o caso veio à tona, organizações de defesa do consumidor e entidades de turismo de aventura passaram a questionar publicamente a precariedade dos protocolos de segurança em diversos destinos do Sudeste Asiático.

O Monte Rinjani recebe milhares de turistas por ano, e embora seja uma atração natural deslumbrante, também é conhecido por apresentar riscos significativos, incluindo quedas, deslizamentos e mudanças bruscas de clima.
A especialista em turismo de aventura e segurança de expedições, Renata Andrade, explicou:
“Infelizmente, muitas operadoras locais não têm estrutura adequada. Elas vendem pacotes com a promessa de experiências inesquecíveis, mas terceirizam serviços para guias sem preparo, que não possuem treinamento suficiente para reagir a situações críticas.”
O caso de Juliana reacendeu o debate sobre responsabilidade civil e criminal. Juristas brasileiros apontam que, apesar da ocorrência ter sido em território estrangeiro, é possível mover processos judiciais tanto na Indonésia quanto no Brasil, principalmente se ficar comprovado que houve negligência grave e descumprimento de contrato.
O impacto psicológico na vítima
Ainda hospitalizada, Juliana tem apresentado episódios recorrentes de insônia, ansiedade intensa e ataques de pânico. Médicos e psicólogos acompanham de perto sua evolução, mas a família reconhece que a recuperação emocional será lenta e dolorosa.
“Ela tem medo de fechar os olhos e acordar de novo lá, sozinha. A cada barulho, se assusta. É muito difícil assistir a isso e não ter como apagar essa memória”, relatou o pai.
Especialistas em trauma lembram que situações extremas de abandono podem deixar sequelas duradouras, como transtorno de estresse pós-traumático.
As lições e a necessidade de mudança
Para além da indignação, o caso desperta reflexões importantes. As redes sociais foram tomadas por relatos de outros turistas que viveram experiências de risco similares na Indonésia, Tailândia e Nepal.
A principal crítica é à falta de fiscalização e à fragilidade das garantias contratuais oferecidas pelas agências. Muitos pacotes são comercializados em plataformas online, com promessas pouco realistas e sem nenhum tipo de verificação prévia da estrutura operacional das empresas.
“O que aconteceu com a Juliana não é um incidente isolado. É reflexo de um modelo que prioriza lucro rápido e volume de turistas, em detrimento da vida das pessoas”, resumiu Renata Andrade.
O desfecho e o futuro
Ricardo Marins afirmou que a prioridade, neste momento, é garantir que a filha se recupere, mas que pretende mover todas as ações cabíveis contra a empresa e o guia responsável.

“Se fosse só por nós, talvez deixássemos para lá. Mas e quem vai ser a próxima vítima? Eu não quero ver outro pai passando por isso. Essa empresa precisa responder.”
Enquanto Juliana tenta encontrar forças para recomeçar, o caso se torna um alerta para turistas e autoridades de todo o mundo sobre os riscos que podem se esconder atrás de pacotes turísticos que prometem aventura sem garantir a mínima segurança.
A investigação na Indonésia segue em curso. O Ministério do Turismo do país informou que novas regulamentações devem ser anunciadas nas próximas semanas, incluindo exigências de comunicação por satélite e certificação obrigatória de guias que atuem em zonas de risco elevado.
Para a família Marins, porém, nada apagará a sensação de desamparo vivida naquele entardecer no vulcão.
“Ela confiou naquele homem. Eu confiava que minha filha estaria segura. Isso foi tirado dela e de nós”, concluiu Ricardo.
Seguiremos acompanhando todos os desdobramentos deste caso, que expôs de forma tão dolorosa os limites entre o sonho da viagem perfeita e a realidade do despreparo de quem deveria proteger vidas.